Especial
SÉRIE: O SILÊNCIO QUE NUNCA DEVERIA TER FIM – Chega de luto sem ação: o que o Brasil precisa fazer agora
Dayse Barbosa merece mais do que homenagens. Merece um país diferente.
Nota editorial: Esta é a terceira e última matéria do especial do SIGMATES sobre feminicídio. Começamos com a morte de Dayse Barbosa. Falamos sobre a vida das mulheres brasileiras. Agora, chegou a hora de cobrar e de propor.
Quando Vitória completou 600 dias sem feminicídio, a Prefeitura fez questão de celebrar. E fazia sentido celebrar: aquele número era o resultado de trabalho duro, políticas consistentes e de uma comandante chamada Dayse Barbosa que tratava cada dia sem violência como uma vitória conquistada.
Vinte e dois dias antes de Vitória completar dois anos sem um assassinato motivado por gênero, Dayse foi morta.
O número zerou. A vida, não volta.
O Brasil decretou luto. Autoridades lamentaram. As redes sociais se encheram de fotos com a bandeira do Espírito Santo. E então, como sempre acontece nesses casos, o noticiário seguiu em frente.
O SIGMATES se recusa a fazer o mesmo.
Um país em emergência que não se trata como tal
Os dados não mentem. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios desde que o crime foi tipificado em lei: mais de 1.500 mulheres assassinadas, a maioria dentro de casa, pela mão de quem dizia amar. Em 2026, os primeiros meses já confirmam que a tendência de alta não cedeu.
Segundo o Conselho Nacional de Justiça, os processos de feminicídio triplicaram em cinco anos: de 4.210 casos em 2020 para mais de 12.000 em 2025. Em janeiro de 2026, já havia 947 novos casos registrados, crescimento de quase 3,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.
No Espírito Santo, entre 2025 e março de 2026, o estado contabilizou 40 feminicídios. Com a morte de Dayse, chegamos a cinco apenas neste ano.
Esses números têm uma consequência direta: filhos órfãos, famílias destruídas, comunidades traumatizadas. E uma pergunta que insiste em ficar sem resposta:
Quando isso vai parar?
A resposta honesta é: quando decidirmos, de verdade, que isso precisa parar.
O que o governo precisa fazer, e ainda não fez direito
Em fevereiro de 2026, o governo federal, o Congresso Nacional e o Poder Judiciário lançaram o Pacto Nacional Contra o Feminicídio. A intenção é boa. O histórico de iniciativas similares, porém, pede cautela antes do otimismo.
O SIGMATES, como representante das guardas municipais e agentes de trânsito do Espírito Santo, profissionais que estão na linha de frente do atendimento às vítimas, apresenta suas demandas concretas:
1. Que as medidas protetivas sejam cumpridas e monitoradas de verdade
Em 2025, a Justiça concedeu mais de 620 mil medidas protetivas no Brasil, uma a cada 50 segundos. Conceder não é garantir. Diego Oliveira de Souza não havia violado nenhuma medida protetiva porque nenhuma havia sido solicitada. Mas havia violência. Havia testemunhas. Havia um pai que precisou tirar o agressor de cima da própria filha. Precisamos de mecanismos que capturem os sinais antes que seja tarde, não apenas após o registro formal.
2. Que as guardas municipais sejam reconhecidas e equipadas como agentes de proteção à mulher
As guardas municipais são, em muitos casos, o primeiro ponto de contato entre uma mulher em situação de risco e o Estado. Dayse entendeu isso e transformou a GCM de Vitória em referência nacional nessa atuação. Mas falta treinamento sistematizado, protocolos claros e reconhecimento legal para que essa atuação se expanda a todo o país.
3. Que policiais e agentes de segurança pública sejam tratados como grupo de risco
Existe um dado cruel que poucos discutem: profissionais de segurança pública têm acesso a armas, vivem sob pressão crônica e muitas vezes não buscam ajuda psicológica por medo de estigma. Diego Oliveira de Souza era agente da PRF. Isso não justifica o crime, pois nada o justifica. Mas é um alerta: precisamos falar sobre saúde mental nas forças de segurança, especialmente quando há histórico de comportamento agressivo no ambiente doméstico.
4. Que a subnotificação seja enfrentada com política pública
A pesquisa da UEL indica que o número real de feminicídios supera em 38% os dados oficiais. Isso significa que para cada mulher que entra nas estatísticas, há pelo menos uma que desapareceu sem que o sistema soubesse. Investir em capacitação de delegados, peritos e profissionais de saúde para identificar e registrar corretamente esses casos é urgente.
5. Que Vitória e o Espírito Santo mantenham e ampliem as políticas que funcionaram
Os 652 dias sem feminicídio em Vitória não foram acidente. Foram resultado de trabalho. A capital capixaba construiu uma rede de proteção que funcionou e que precisa ser não apenas mantida, mas expandida para os demais municípios do estado. O legado de Dayse não pode ser enterrado com ela.
O que a sociedade precisa fazer: hoje, não amanhã
Políticas públicas são fundamentais. Mas o feminicídio também tem raízes que nenhuma lei sozinha desarraiga.
Precisamos de homens que eduquem outros homens. Que reconheçam o ciúme possessivo como sinal de alerta, neles próprios e nos outros. Que não silencie diante de um amigo que fala da ex como se fosse propriedade sua. Que não normalize o controle como expressão de amor.
Precisamos de vizinhos que liguem quando ouvirem gritos. De colegas de trabalho que perguntem quando percebem marcas ou mudanças de comportamento. De familiares que não digam “isso é problema de casal, não me meto”.
E precisamos que as mulheres saibam que não estão sozinhas. Que denunciar não é fraqueza, é sobrevivência. Que o Ligue 180 atende 24 horas. Que a lei existe para protegê-las. Que a rede existe para acolhê-las.
O que o SIGMATES promete
Nossa filiada Dayse Barbosa não era apenas uma comandante. Era um símbolo do que é possível quando se decide transformar dor em política pública.
O SIGMATES se compromete a:
• Incorporar a pauta do feminicídio como agenda permanente do sindicato, não apenas em datas comemorativas ou tragédias.
• Defender junto às prefeituras e ao governo estadual a criação de protocolos específicos para atuação das guardas municipais em casos de violência doméstica.
• Exigir a implementação de programas de saúde mental para profissionais de segurança pública do ES, com atenção especial ao comportamento violento no ambiente familiar.
• Homenagear Dayse Barbosa com ações concretas que levem adiante o trabalho que ela começou.
O fim que não é um fim
Esta é a última matéria desta série. Mas o tema não se encerra aqui.
Dayse Barbosa foi morta em 23 de março de 2026. Vitória perdeu 652 dias de conquista em uma única madrugada. O Brasil perdeu uma líder. Uma filha. Uma mãe. Uma servidora pública que acreditava que era possível construir um lugar mais seguro para as mulheres.
Ela estava certa. É possível.
Mas não acontece sozinho. Não acontece apenas com lutos decretados e notas de pesar. Acontece quando decidimos, coletivamente, que o nome de nenhuma mulher vai virar mais um número numa estatística que envergonha o país.
Dayse merecia viver. As que virão depois dela merecem um Brasil diferente.
Essa é a única homenagem à altura.
Canal de denúncias:
• Ligue 180 | Central de Atendimento à Mulher (24h, gratuito)
• 190 | Polícia Militar
• Delegacia Virtual da Mulher/ES | atendimento online
Esta série foi produzida pelo SIGMATES (Sindicato das Guardas Municipais e Agentes de Trânsito do Estado do Espírito Santo) em memória de Dayse Barbosa Mattos, nossa filiada, nossa comandante, nossa companheira.
Especial
SÉRIE: O SILÊNCIO QUE NUNCA DEVERIA TER FIM – Ser mulher no Brasil: a força que o país consome sem reconhecer
Elas ocupam postos de liderança, protegem comunidades, criam filhos sozinhas. E ainda assim vivem com medo. O que os números e as histórias revelam sobre a vida das mulheres brasileiras.
Nota editorial: Esta é a segunda matéria do especial do SIGMATES sobre feminicídio. Se você ainda não leu a abertura, sobre a morte de nossa filiada Dayse Barbosa, comece por ela. O que vem a seguir só faz sentido pleno quando entendemos quem perdemos.
Dayse Barbosa era pedagoga. Depois, guarda municipal. Depois, comandante. Mãe de uma menina de oito anos. Filha que morava com o pai. Profissional que transformou uma corporação. Ativista que nomeou a violência que outros preferiam não ver.
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Ela era, em uma só pessoa, o que o Brasil exige das mulheres todos
os dias: tudo, ao mesmo tempo, sem reclamar.
Não é uma metáfora. É a realidade documentada de mais da metade da população
brasileira.
A mulher que sustenta e ainda é invisível
O Brasil tem hoje mais mulheres do que homens. Elas são maioria nas universidades,
maioria entre os concluintes do ensino superior, maioria nos empregos do setor de
saúde e educação, dois dos pilares que mantêm o país funcionando. E ainda assim,
segundo a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, publicada em
dezembro de 2025, quase metade das mulheres brasileiras não se sente tratada com
respeito: nem em casa, nem no trabalho, nem nas ruas.
Não é uma percepção. É uma condição estrutural.
Nas forças de segurança pública, campo onde Dayse atuava, as mulheres enfrentam
uma camada adicional de resistência. Elas precisam provar competência em
ambientes historicamente masculinos, lidar com o escrutínio sobre suas decisões de
uma forma que os homens simplesmente não enfrentam, e ainda carregar, muitas
vezes sozinhas, a missão de humanizar instituições que foram construídas sem elas
em mente.
Dayse fez isso. E pagou com a vida.
O medo que não aparece nos relatórios
Existe uma violência que não gera boletim de ocorrência. Que não entra nas
estatísticas. Que não tem nome nos sistemas de segurança pública.
É o ciúme que parece amor. O controle que parece cuidado. A possessividade que
parece paixão. São os episódios que o pai de Dayse vivenciou e jamais foram
registrados: o namorado que a enforcava, de quem ele mesmo teve que separá-la.
“O feminicídio é o estágio mais extremo de uma escalada de violências que, às vezes, começa silenciosa nos relacionamentos. Antes de chegar ao assassinato, a vítima geralmente já foi exposta a diferentes formas de agressão: psicológica, moral, patrimonial e financeira.”
Isabela Aigner, advogada especialista em Direito de Família.
Segundo o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pela Universidade Estadual de Londrina, ao menos 22% das mulheres assassinadas haviam feito denúncias anteriores contra seus agressores. Ou seja: elas tentaram. O sistema falhou.
E as que não denunciaram? As razões são conhecidas: medo de represália, dependência financeira, amor, vergonha, falta de uma rede de apoio. No caso de Dayse, faltou algo que parece simples mas não é: a crença de que seria levada a sério.
Isso não é fraqueza. É o retrato de uma sociedade que ainda pune a mulher que denuncia e absolve o homem que ameaça.
Números que têm rosto
Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios desde que o crime foi tipificado, em 2015. Foram ao menos 1.518 mulheres assassinadas, uma média de quatro por dia. O levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídios da UEL aponta números ainda mais alarmantes: quase seis mulheres mortas por dia, somando casos consumados e tentativas.
Dos casos com dados conhecidos, 75% ocorreram no âmbito íntimo: o agressor era parceiro ou ex-parceiro. Cerca de 66% das vítimas foram mortas dentro de casa. Aquele lugar que deveria ser refúgio.
A maioria das vítimas tinha entre 25 e 34 anos. Quase 70% tinham filhos. Em 2025, 1.653 crianças ficaram órfãs em razão do feminicídio.
Uma dessas crianças tem oito anos. Mora em Vitória. E vai crescer sem a mãe que a amava e que tentava, com todo o peso do cargo que carregava, evitar que outras crianças vivessem o mesmo.
O machismo que não precisa de nome
Pesquisadores sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública identificam o que especialistas chamam de “efeito rebote”: à medida que as mulheres avançam, conquistam espaço e exercem autonomia, uma parcela de homens reage com hostilidade. A independência feminina, para eles, é uma ameaça.
Diego Oliveira de Souza não aceitava o fim do relacionamento. Segundo a delegada Raffaella Aguiar, titular da Delegacia de Homicídios, “a violência de gênero diz sobre quem é ele.” Comportamento ciumento, possessivo e controlador, reconhecido por quem convivia com o casal, mas sem registro formal.
Essa é a anatomia do feminicídio. Não começa com um tiro. Começa com a crença de que a mulher é uma posse.
A força que cansa
Há uma expectativa cruel depositada sobre as mulheres brasileiras: que sejam fortes. Que superem. Que resistam. Que sigam em frente.
Dayse era forte. E ainda assim foi assassinada.
Força não é armadura contra bala. Consciência não é escudo contra um homem armado que sobe uma escada de madrugada com a intenção de matar.
O que as mulheres precisam não é de mais força. É de um sistema que funcione. De políticas que protejam antes de precisar remediar. De uma sociedade que pare de colocar o ônus da sobrevivência apenas sobre elas.
É disso que vamos falar na próxima, e última, matéria desta série.
Leia na Quinta-feira dia 02 : Chega de luto sem ação: o que o Brasil precisa fazer agora
Especial
SÉRIE: O SILÊNCIO QUE NUNCA DEVERIA TER FIM – Ela dedicou a vida a proteger mulheres da violência. A violência não a poupou.
A morte de Dayse Barbosa encerra 652 dias de silêncio em Vitória e reacende uma chama que o Brasil teima em apagar
Era quase 1h da manhã da segunda-feira, 23 de março de 2026, quando o silêncio do bairro Caratoíra, em Vitória, foi rompido por disparos.
Dentro da casa, havia um pai idoso dormindo no quarto ao lado. Uma criança de oito anos. E Dayse Barbosa Mattos, 38 anos, comandante da Guarda Civil Municipal de Vitória, a primeira mulher na história da corporação a ocupar esse posto e uma das vozes mais firmes do Espírito Santo no combate à violência doméstica.
Ela dormia quando o namorado, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, escalou a marquise da casa com uma escada, arrombou a porta do quarto e disparou. Cinco vezes. Na cabeça. Sem que ela pudesse reagir.
A polícia encontrou na mochila do agressor um canivete, uma faca, um alicate, um isqueiro, carregadores de munição e um vidro de álcool. Não foi um impulso. Foi um plano.
Diego se matou logo em seguida, na cozinha da mesma casa.
O peso de um número: 652 dias
Vitória havia chegado a uma marca que parecia, até então, um prenúncio de esperança:
652 dias sem nenhum feminicídio registrado na capital capixaba.
Quando a cidade atingiu os 600 dias, foi Dayse quem representou a prefeitura nos pronunciamentos. Ela falou sobre a importância da conscientização, sobre a necessidade de que mulheres reconhecessem os sinais de violência e buscassem ajuda. Ela conhecia cada estatística. Cada rosto. Cada história.
Na madrugada daquele domingo para segunda-feira, Dayse se tornou mais uma delas.
“Vitória estava há 652 dias sem feminicídios até ontem. Estávamos trabalhando nesse sentido.” Amarílio Boni, Secretário de Segurança Urbana de Vitória.
O recorde havia acabado. Com a mulher que mais lutou para mantê-lo.
Quem era Dayse
Natural de Vitória, criada no bairro Santo Antônio, o mesmo onde seria enterrada, Dayse se formou em Pedagogia antes de ingressar na Guarda Municipal, em 2012. Subiu cada degrau pelo mérito, em uma corporação que, por mais de duas décadas de existência, nunca havia tido uma comandante mulher.
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Quando assumiu o posto, ela não mudou apenas o cargo. Mudou a forma como a Guarda se relacionava com a pauta da violência de gênero. Políticas públicas, ações de conscientização, parcerias com redes de proteção à mulher. Tudo isso passou a ter um rosto, uma voz e um nome: Dayse.
“Profissional exemplar, Dayse destacou-se também por sua firme atuação na defesa dos direitos das mulheres”, disse a Prefeitura de Vitória em nota oficial. O governador Renato Casagrande decretou luto de três dias. O prefeito Lorenzo Pazolini a chamou de “ser humano completo, acolhedor, que fazia um trabalho extraordinário”.
Mas quem mais falou sobre ela, no dia do velório, foi o pai. Carlos Roberto Teixeira contou que o relacionamento de Dayse com Diego era marcado pela violência. Que ele mesmo flagrou o namorado tentando enforcá-la uma vez. Que interveio. Que afastou o agressor.
“Já tirei ele de cima dela.” Carlos Roberto Teixeira, pai de Dayse.
Não havia registro policial. Não havia boletim de ocorrência. Só a memória de um pai que fez o que pôde, e a prova brutal de que não foi suficiente.
O paradoxo que dói
A morte de Dayse Barbosa expõe uma das feridas mais profundas do feminicídio no Brasil: nenhuma posição, nenhum cargo, nenhuma consciência protege uma mulher quando o Estado falha em protegê-la antes.
Dayse sabia de tudo. Conhecia os sinais. Conhecia a lei. Conhecia as delegacias, as medidas protetivas, os números de atendimento. E ainda assim, em uma madrugada de março, foi assassinada dentro de casa enquanto dormia.
“O feminicídio mostra que todas nós estamos sujeitas, independentemente da posição que ocupamos. Hoje, no velório, o que une mulheres é a dor, o choro e um sentimento profundo de impotência.” Jacqueline Moraes, Secretária Estadual das Mulheres do ES.
Nossa filiada Dayse Barbosa era membro ativa do SIGMATES, Sindicato das Guardas Municipais e Agentes de Trânsito do Espírito Santo. Sua trajetória é parte da trajetória de toda a nossa categoria. E sua morte nos obriga a ir além do luto. Nos obriga a falar.
Esta é a primeira de três matérias que o SIGMATES publica esta semana. Porque o silêncio, aqui, não é uma opção.
➤ 2ª Parte da Série – Terça-feira 31/03: Ser mulher no Brasil: a força que o país consome sem reconhecer
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